Já ouviu um livro? Obras narradas são a nova aposta do mercado editorial

Confira a matéria original no site da Folha de S.Paulo.

“Mas você leu ou só ouviu?” A pergunta parecia inevitável. Ao longo dos últimos dez meses, surgia sempre que eu comentava algo interessante sobre uma obra que estava lendo. Na verdade, muitos prefeririam que eu escrevesse “lendo”, entre aspas, pois nesse período fiz uma imersão no universo dos audiolivros.

O mercado de livros que têm seus textos narrados em voz alta e gravados para serem escutados está em franca expansão. Nos Estados Unidos, saltou de 36 milhões de unidades vendidas em 2011 para 89 milhões em 2016 e atingiu faturamento de US$ 2,1 bilhões (R$ 6,9 bilhões).

Mesmo no Brasil, onde todo o setor editorial faturou R$ 5,2 bilhões em 2016 (queda de 5,2% em relação a 2015), cresce o interesse pelos audiolivros. Pelo menos essa é a visão de novas empresas locais que investem nesse filão, como a Ubook e a Toca Livros, além da multinacional Audible, da Amazon, que em breve estará no país.

A aposta se baseia em dois fatores complementares: 1) com a atenção cada vez mais disputada por diferentes mídias, as pessoas têm menos tempo para sentar e ler; 2) a tecnologia permite que elas levem os livros narrados no bolso, em um aplicativo de celular que já carregariam consigo, acessível em qualquer lugar e a qualquer hora.

“O smartphone mudou a dinâmica do negócio do audiolivro , assim como o streaming e o serviço de assinaturas”, diz Silvia Leitão, editora de negócios digitais do Grupo Record.

“É um mercado que está engatinhando, mas acreditamos em seu potencial”, afirma Mariana Mello e Souza, coordenadora de livros digitais da Rocco.

As duas editoras estão entrando no mercado com algumas dezenas de títulos narrados em português.

PRATICIDADE

O formato tem uma característica particularmente sedutora: permite que o conteúdo seja consumido sem maiores complicações enquanto se realizam outras atividades –grande vantagem para os cerca de 40% de brasileiros que dizem não ler mais por falta de tempo.

Nesse período de dez meses, li 29 audiolivros, o triplo da meta habitual de um título por mês. Aproveitei diversos momentos nos quais não conseguiria parar, abrir uma publicação impressa e me concentrar apenas no texto.

Na semana em que finalizava esta reportagem, ouvi a atriz Claire Danes narrar o romance “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, distopia que ganhou atenção especial desde a eleição de Donald Trump. As 325 páginas se converteram em pouco mais de dez horas de áudio e duraram cinco dias.

Em seguida, já começava a “reler” o clássico “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, que estava havia pelo menos uma década na fila de títulos a serem revisitados.

Com a versão auditiva, lia enquanto caminhava na rua, quando estava no ônibus ou na academia de ginástica, durante o almoço, ao lavar louça, ao cozinhar ou quando havia qualquer tempo livre.

Lia? Ou só ouvia? O preconceito existe. A maioria parece considerar que ouvir um audiolivro é atividade menos nobre do que ler obras escritas em papel ou em meio eletrônico.

A própria noção de “ler” está associada à visão. O principal significado do verbo no dicionário é o de percorrer um texto com a vista ou com os dedos. Nenhuma concepção inclui a audição, embora haja referência à enunciação em voz alta de um texto, como ao recitar ou declamar.

DESCONFIANÇA

“Há uma resistência natural do leitor tradicional em experimentar o livro em áudio. Eles costumam citar o cheiro, o toque do livro físico”, afirma Leonardo Sales, diretor de operações da Ubook.

Para Sandra Silvério, editora da Livro Falante, as pessoas criam mitos sobre esse formato:

Acham que é para quem tem preguiça, para quem tem problema de visão, para quem não sabe ler ou para deficientes visuais. Não é bem assim. O áudio é a melhor opção para quem ama ler, mas está sempre ocupado com outras coisas e não consegue parar para ler tanto quanto gostaria”.

Daniel Willingham, doutor em psicologia cognitiva pela Universidade Harvard e professor da Universidade da Virgínia, diz ficar incomodado com a ideia de que ouvir um livro é trapacear, burlar o método tradicional.

“As pessoas pensam na leitura como uma conquista, uma façanha. Acham que ler é algo de que precisam se orgulhar, algo digno de ser elogiado pelos outros”, afirma.

Autor do livro “The Reading Mind” (a mente leitora; ed. Jossey-Bass), recém-lançado nos EUA, Willingham diz que essa concepção equivocada decorre da maneira como se trata a leitura na escola, como exercício obrigatório, e não atividade opcional e prazerosa.

Além disso, a impressão é reforçada porque muitos escutam livros enquanto se dedicam a outras tarefas. Se a atenção está dividida, então a leitura seria menos legítima. A ciência, contudo, não sustenta essa tese.

COGNIÇÃO

Do ponto de vista da teoria da leitura, a base cognitiva faz com que escutar um texto seja o mesmo que ler um texto, afirma o professor da Universidade da Virgínia. Ele cita a “visão simples da leitura”, conceito desenvolvido por Philip B. Gough e William E. Tunmer nos anos 1980, segundo o qual entender um texto envolve dois conjuntos de habilidades: a decodificação de palavras e a compreensão linguística. No audiolivro, segundo Willingham, ambos estão presentes.

Isso não significa, contudo, que as duas atividades sejam equivalentes para todas as pessoas e em todas as circunstâncias.

Tanto especialistas em cognição quanto editores especializados em audiolivros fazem uma ressalva importante: a absorção de conteúdos de forma auditiva varia de acordo com o ouvinte, assim como a capacidade de concentração no áudio. Pode-se melhorar com treinamento, mas há quem se distraia com mais facilidade ao ouvir um livro.

Também há restrições de outras naturezas. O tipo de livro, por exemplo, interfere na assimilação.

“A leitura pelo entretenimento funciona de forma similar em qualquer formato. Estudantes que leem para conhecer novos conceitos ou que precisam memorizar o conteúdo, entretanto, têm aproveitamento melhor com textos visuais do que com áudio”, diz Willingham.

André Frazão Helene, professor do Instituto de Biociências da USP e coordenador do Laboratório Ciência da Cognição, afirma que o conteúdo do texto raramente implica diferenças cognitivas para o leitor. “A não ser em caso de poemas concretos ou em textos com marcações visuais muito claras.”

DESVANTAGENS

A discussão, no entanto, não se restringe à compreensão. Helene sustenta que se concentrar apenas na audição traz desvantagens cognitivas. “Enquanto desafio, a leitura cria um hábito associado a um exercício, uma tarefa cotidiana que ajuda a desenvolver a habilidade do cérebro, especialmente em processos de envelhecimento.”

De acordo com o professor da USP, ainda é preciso considerar a relação entre ler e escrever, que se enfraquece nos audiolivros.

“Abrir mão da leitura seria ruim e atrapalharia a formação da capacidade de produzir textos, de conhecer a língua, de saber ortografia. É importante treinar a leitura de textos para desenvolver a construção da redação. Não se deve abrir mão da experiência do desafio cognitivo da leitura por causa da praticidade, especialmente num país onde se lê pouco”, diz.

A praticidade, porém, é inegável. Nos EUA, onde se contam mais de 67 milhões de consumidores de audiolivros, a maioria os lê no trânsito, segundo dados da Audible.

Foi num engarrafamento que tive o primeiro contato com a audição de textos, em 2012 – sem contar as histórias de crianças da Coleção Disquinho, ouvidas na infância.

Como trabalhava a 11 quilômetros de casa e passava mais de uma hora no trajeto todos os dias, comecei a ouvir a leitura robótica de uma versão antiga do Kindle, o leitor digital da Amazon. Quase não havia entonação, e palavras menos comuns ou nomes próprios eram pronunciados com dificuldade. Ainda assim, conseguia entender o conteúdo dos livros e aumentar minha carga de leitura.

Só a partir de 2016 entrei no mundo do audiolivro produzido como tal, com gravação e narração profissionais. Primeiro em inglês, pela Audible americana, depois em português, pela Ubook e pela Toca Livros.

ENTONAÇÃO

No começo, causava estranheza perceber que os narradores davam entonação a falas de personagens e acrescentavam ao texto alguma interpretação própria. Com o tempo, entretanto, é fácil se habituar e transformar esse aspecto em ferramenta a favor da compreensão.

“A prosódia pode dar uma predisposição à interpretação do texto, mas isso não é necessariamente um problema. Quando lemos, destacamos diferenças, mas na maior parte do tempo temos uma interpretação semelhante”, afirma Willingham, da Universidade da Virgínia.

Ele ressalta, no entanto, a importância de o texto ser bem compreendido por quem o está gravando. “Tenho a sensação de que o locutor de um dos meus livros não entendeu os conceitos. Ele não sabe o que está lendo. Por isso, eu mesmo narrei a gravação do meu livro mais recente”, diz.

Não se trata de caso único. Se há risco de a história ser deturpada pelo narrador, as editoras escalam o próprio autor para a locução. Isso tem acontecido com cada vez mais frequência. Ouvi “A Cor Púrpura” lido por Alice Walker; “O Dono do Morro”, por Misha Glenny, “O Professor e o Louco”, por Simon Winchester, e “Entre o Mundo e Eu”, por Ta-Nehisi Coates.

Em muitos casos, o selo “lido pelo autor” é estampado como um ativo do audiolivro, especialmente valioso no caso dos escritores mais conhecidos. Como desprezar a experiência de ouvir “Sobre a Escrita” pela voz de Stephen King?

Diga-se o mesmo de atores consagrados. O mercado de audiolivros tem recorrido a nomes de peso, como Reese Witherspoon (Oscar de melhor atriz em 2006 por “Johnny & June”), Eddie Redmayne (Oscar de melhor ator em 2015 por “A Teoria de Tudo”) e John Malkovich (indicado ao Oscar de 1994 pelo filme “Na Linha de Fogo”), além da já mencionada Claire Danes (ganhadora de quatro Globos de Ouro, dois deles pela série “Homeland”), entre outros.

Em português, a premiada antologia de contos “Amora”, de Natalia Borges Polesso, é lida pela cantora lírica Marília Zangrandi, enquanto clássicos de Machado de Assis têm locução do apresentador Rafael Cortez.

Na maior parte dos casos, porém, os livros são lidos por profissionais treinados para evitar a dramatização das obras.

“O objetivo é levar a emoção da leitura para a narrativa, mas a história tem que ser o centro da atenção. O ouvinte deve esquecer que há um narrador ali e pensar só no conteúdo”, diz Marta Ramalhete, gerente de produção da Ubook.

CULTURA DE GRAVAÇÃO

Ela afirma que o desafio para criar uma cultura de narração de livros no Brasil ainda é grande. Desde o início do trabalho na empresa, três anos atrás, ela avaliou 150 pessoas. A cada obra, mais de um narrador grava um trecho como teste. A decisão final pode ter influência da editora que possui os direitos autorais e até dos próprios autores.

A Folha acompanhou um dia de produção de audiolivros no escritório da Ubook, no último andar de um pequeno prédio comercial na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Ali há dois estúdios de gravação –duas pequenas cabines em uma mesma sala. Enquanto o narrador lê o livro, um produtor acompanha o processo, faz sugestões e correções.

Para não forçar a voz –o que se refletiria numa leitura cansada–, o narrador grava só três horas por dia. Essa jornada rende, em média, uma hora de áudio finalizado, o que equivale a cerca de 30 páginas. Assim, um livro de 300 páginas será ouvido em 10 horas e terá consumido 30 horas para ser gravado.

Depois ainda há edição, revisão e regravação de trechos. No total, cada livro da Ubook costuma demorar três semanas para ficar pronto. A empresa já produziu cerca de 1.500 audiolivros em português.

Um pouco menor, a Toca Livros tem 1.000 títulos em seu acervo e produz de 150 a 200 obras por ano.

As duas empresas surgiram em 2014, cresceram rapidamente e hoje concentram a produção e a distribuição de audiolivros no Brasil. Elas também tiveram origem parecida. Ambas nasceram de projetos sem relação com o mercado editorial, que apostaram na tecnologia dos aplicativos de celular para dispensar o livro físico.

O trabalho delas começou pela tentativa de convencer as editoras a ceder títulos para a gravação e a entrar no mercado de audiolivros. A partir daí, as estratégias divergem.

A Ubook tem modelo inspirado na Netflix: seus assinantes têm acesso a todo o catálogo de livros para ouvi-los de forma ilimitada. A Toca Livros negocia diferentes formatos com as editoras: às vezes, usa o sistema “sirva-se à vontade”, outras, oferece títulos “à la carte”.

Na maioria das ocasiões, autores e editoras são remunerados de acordo com o número de audições de cada título.

O modelo de negócio interessa a quem prefere não tirar dinheiro do próprio bolso. Grandes editoras do país, como Record, Rocco e Globo, começaram a desenvolver versões narradas de suas obras, mas, devido à crise, têm feito poucos investimentos diretos no novo segmento.

A gravação de cada audiolivro pode custar em torno de R$ 15 mil, e o retorno por obra é baixo para as editoras. Não surpreende que o setor demore a se expandir. Segundo Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e diretor da Sextante, a discussão não chegou oficialmente à entidade.

Ainda assim, produtores de audiolivros têm expectativas elevadas. Um dos motivos é a chegada próxima da Audible, maior empresa do setor nos EUA. Com escritórios na Alemanha, no Reino Unido, na França, na Austrália, no Japão e a na Itália, a empresa tem potencial para alavancar o mercado de livros sonoros por aqui.

Outra razão é o sucesso da experiência americana. As cifras, naturalmente, são incomparáveis. Nos EUA, vendem-se a cada ano mais de 2,5 bilhões de livros de todos os formatos (89 milhões de audiolivros em 2016), ao passo que o montante no Brasil fica pouco abaixo de 400 milhões (não há um dado específico sobre o número de audiolivros no país, já que a maior parte do consumo é feita por assinaturas, mas a Ubook diz ter mais de 2 milhões de cadastrados).

Mais: no Brasil, as duas principais empresas do setor somam um total inferior a 3.000 audiolivros; nos EUA, só em 2016 foram lançados 51 mil títulos nesse formato.

Os fatores que explicam a popularização do livro sonoro por lá (tempo escasso e novas tecnologias), contudo, replicam-se aqui.

CRIAR O HÁBITO

A eles se junta outro, específico do Brasil. Segundo levantamento do Instituto Pró-Livro (dados de 2015, os mais recentes), apenas 56% dos brasileiros podem ser considerados leitores – quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa.

Imagina-se que, nesse cenário, o formato dos audiolivros possa oferecer uma porta de entrada a quem não tem o hábito de consumir conteúdo editorial. Para o mercado de livros, que encolheu 17% nos últimos dois anos, a esperança é válida. Se a população não lê, pode passar a ouvir.

De acordo com a pesquisa do Instituto Pró-Livro, 77% dos brasileiros afirmaram ter alguma dificuldade para ler. As barreiras são variadas. Incluem falta de paciência (24%), pouca velocidade na leitura (20%), problemas de visão e limitações físicas (17%) e falta de instrução (10%).

Todos esses obstáculos poderiam ser superados no formato de audiolivro.

“Não queremos substituir o livro físico. Queremos complementar [a oferta] e servir de alternativa, proporcionar um formato novo de ter acesso a conteúdos editoriais”, diz Leonardo Sales, da Ubook.

Um dos trunfos do audiolivro é quebrar a visão da leitura como sacrifício, segundo Ricardo Camps, da Toca Livros. “O áudio faz a literatura ser mais divertida e pode estimular o gosto pela leitura, cativando novos leitores.”

Não existem dados detalhados sobre consumo de audiolivros no Brasil, mas a pesquisa nacional sobre os hábitos de leitura de 2015 incluiu pergunta sobre esse formato.

Segundo o levantamento, 12% dos leitores do Brasil (ou pouco mais de 6% da população) leem dessa forma com regularidade (nos EUA, são 24% da população). O índice ainda é baixo, mas bem maior que os 2% registrados nas edições anteriores da pesquisa, em 2007 e 2011.

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