Audiolivros e a leitura com os ouvidos

Por Rafael de Oliveira Barbosa

Quando convidado para escrever esse texto, pensei em fazê-lo com uma provocação ao leitor de audiolivros: como o formato sonoro se torna parte da História do Livro? Escrevo como um estímulo a sua curiosidade para pensar o audiolivro além da óbvia e insuficiente afirmação de um “livro oralizado”. Não é um esforço diferente daquele que muitos já fizeram a respeito do livro, tão presente em nossa cultura que, muitas vezes, o naturalizamos, pensando que ele sempre foi do jeito que é.

Na verdade, pesquisadores de diversos cantos do mundo já mostraram variados formatos e múltiplas experiências do homem com seus livros, revelando-nos vastos comportamentos diante dos textos, modos de produzi-los e publicá-los e expectativas quanto a sua circulação. Por meio desses estudiosos, descobrimos, por exemplo, que as performances orais de obras literárias não são um fenômeno recente. E, assim, a História do Livro vai nos ajudando a entender os audiolivros e sua leitura nos tempos atuais.

A fonografia e as transformações na leitura

Do mesmo modo, há alguns anos pesquisadores como eu estão interessados em explorar o audiolivro – imaginado ainda como um “livro fonográfico” pelo americano Thomas Edison há 139 anos, ao apresentar em um artigo de jornal o seu invento: o fonógrafo. Ao longo do tempo, a captura e a preservação da voz para reprodução e edição por meio tecnológico impactaram a leitura com o ouvido de modo similar ao que atribuem ao códice ou à prensa de Gutenberg na produção e circulação do texto escrito. A partir daí, mas de forma gradual, é possível conceber a literatura gravada como um produto editorial, em que se pensa nas etapas de produção, na forma material das obras sonoras e nos suportes de leitura – e não apenas para deficientes visuais, mas para todo mundo. São novas formas de práticas no mundo da leitura e da composição dos textos.

Audiolivros e tecnologias digitais

Desde 2012, junto ao grupo de pesquisa “Livros e Cultura Letrada”, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), dedico-me a pesquisar os audiolivros comerciais enquanto produto cultural e a pensar seu lugar a partir das diversas experiências de leitores sem deficiência visual no contexto digital. Desfazendo falsas suposições e oposições entre leituras de livros e audiolivros e tomando esse último como uma mídia em si, e não produto derivado do livro, preocupamo-nos com o processo de composição material (as etapas de produção, os agentes envolvidos), com os elementos da obra sonora (como paratextos, efeitos sonoros e vozes) e com as tecnologias de leitura (formatos de arquivos, suportes de armazenamento, tocadores). Afinal, não devemos pré-estabelecer que os audiolivros sejam menos diversos que os livros.

Na verdade, retomando a pergunta colocada no início, no que trazem de novidade e no que mantêm de outros formatos de livro, os audiolivros nos auxiliam a rever concepções e representações no mundo do texto e do leitor. E, sempre que possível, nos convidam a experimentar outras potencialidades nos modos de ler.

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Rafael é Jornalista e Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Área de investigação atual: História do Livro e da Leitura, as relações entre objetos textuais, leitores e cultura e as novas produções editoriais no ambiente digital – no momento, com foco em audiolivros.

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