Você sabe tudo sobre a Literatura Negra brasileira?

No Mês da Consciência Negra, vamos relembrar um pouquinho sobre os autores negros de nossa história!

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Você certamente já ouviu falar da Literatura Afrobrasileira – mas você sabia que alguns dos nossos mais importantes autores são negros?

Não poderia deixar de ser, afinal, a herança africana é fortíssima na cultura brasileira. Segundo o IBGE, 54% da população brasileira é negra e, ao longo da história, várias figuras deixaram suas marcas na música, na política, no cinema e, claro, na literatura. Vamos conhecer alguns deles?

 

1. Machado de Assis

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Dono de uma bibliografia histórica e um dos maiores nomes da literatura nacional, o fundador da Academia Brasileira de Letras e autor de clássicos como “Dom Casmurro” nasceu no Morro do Livramento em 21 de junho de 1839. Filho de pai negro e mãe branca, Machado de Assis teve uma infância humilde, vendendo doces e pouco frequentando a escola pública. Porém, a paixão por leitura sempre definiu seu rumo. Aos 16 anos, já órfão, tornou-se aprendiz de tipografia e fez suas primeiras publicações no jornal “A Marmota”. Em 1872, publicaria seu primeiro romance, “Ressurreição”, e deslancharia sua carreira como um dos mais importantes autores de sua época e o principal nome do realismo brasileiro.

Mas, se Machado era negro, por que nunca é representado como tal? Ao longo dos anos, a figura do autor passou por um grande processo de “branqueamento”, sendo representado até mesmo como loiro em certas ocasiões. Fazendo parte da elite intelectual carioca, sua identidade negra foi por muitas vezes apagada. Após sua morte, escreveu Joaquim Nabuco:

“Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego”.

Machado, da mesma forma, raramente abordava a questão racial em suas obras, apesar de, já no final de sua carreira, comentar sobre a escravidão e a abolição com sua ironia característica. Estudos recentes comprovam até mesmo que o autor era um ferrenho defensor do abolicionismo, fazendo o possível para favorecer a alforria de negros escravizados durante o período em que trabalhou como chefe encarregado do Ministério da Agricultura de D. Pedro II.

De “Memórias Póstumas de Brás Cubas” a “Quincas Borba“, a obra de Machado de Assis está disponível para ouvir no Ubook.

 

2. Lima Barreto

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Um dos principais nomes do pré-modernismo brasileiro, Lima Barreto teve uma vida conturbada. Assim como Machado de Assis, nasceu pobre e teve que lutar desde cedo contra o preconceito. Após ter que abandonar a escola para cuidar de seus irmãos, é contratado como escrituário do Ministério da Guerra. Em 1909, faz sua estreia na literatura com “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, uma reflexão profunda sobre um jovem mulato que sofre racismo – sempre em tom autobiográfico e satírico.

Sua principal obra é “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicado em 1915, uma sátira sobre a sociedade brasileira e carioca após a Proclamação da República. Na estória, Policarpo Quaresmo é um ingênuo e empolgado nacionalista, que sonha em elevar o país à riqueza, mas precisa enfrentar a corrupção e a desigualdade social.

Lima Barreto, assim como Machado de Assis, fazia críticas ácidas à elite e à sociedade, mas sua principal marca é seu linguajar despojado e coloquial, procurando um “escrever brasileiro” genuíno, próximo da fala do povo, sempre priorizando acontecimentos sociais e históricos à linguagem ortodoxa dos intelectuais da época. Por isso, também, recebeu muitas críticas e encontrou dificuldades para fazer suas obras circularem. Em 1922, após internações em hospícios e grandes crises de alcoolismo, Barreto morre na pobreza e no esquecimento, sem saber que se tornaria um dos grandes nomes de nossa literatura.

Romances e contos clássicos de Lima Barreto, como “Triste Fim de Policarpo Quaresma“, estão disponíveis para ler no Ubook.

 

3. Cruz e Sousa

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João da Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) em 24 de novembro de 1861. Filho de ex-escravos, enfrentou desde cedo o preconceito racial, sendo impedido de ocupar um cargo público em Santa Catarina por ser negro.

Cruz e Sousa escreveu seu primeiro poema aos 8 anos, já prevendo uma carreira de sucesso em sua vida adulta, quando se tornou o principal nome do movimento simbolista brasileiro e um dos grandes poetas de nossa história. Suas obras, marcadas pelo misticismo, musicalidade, pessimismo e individualismo, refletem sobre o amor, a vida, a morte, o sofrimento e a religião, tudo marcado por figuras de linguagem como a metáfora e a sinestesia.

Porém, mesmo com temas tão subjetivos, o autor jamais se esqueceu da causa negra. Já aos 20 anos, era um militante engajado pelo abolicionismo, e o tema do racismo está presente em toda sua obra. No belo poema “Livre”, Cruz e Sousa versa sobre a libertação de um negro escravizado:

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

Assim como Lima Barreto, morreu jovem, aos 36 anos, vítima de uma tuberculose. A mesma doença havia levado, anos antes, seus quatro filhos, o que se refletiu em sua obra, cada vez mais sombria, e na saúde mental de sua esposa, que passou a demonstrar sinais de doenças psicológicas.

Grandes obras de Cruz e Sousa como a coletânea de poemas “Broquéis” estão disponíveis para ler no Ubook.

 

4. Maria Firmina dos Reis

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Considerada a primeira mulher brasileira a lançar um romance, Maria Firmina dos Reis foi pioneira na crítica antiescravagista. Filha de mãe branca e pai negro, Firmina usou a literatura como uma maneira de humanizar personagens negros em uma época em que a escravidão ainda era legalizada.

Nascida em 1825, em Maranhão, até hoje não se sabe qual é o verdadeiro rosto de Firmina. Em 1847, se torna professora, já com um forte discurso abolicionista, mas desde cedo precisa enfrentar tentativas de silenciamento – afinal, não era comum que uma mulher expressasse sua opinião, quanto mais uma mulher negra se posicionando contra a escravidão. É apenas anos mais tarde, em 1859, que Maria Firmina dos Reis lança seu primeiro romance, “Úrsula” – uma obra extremamente crítica ao escravagismo, contada do ponto de vista de negros escravizados, muito antes de “Escrava Isaura”.

Maria Firmina dos Reis morre em 1917, deixando uma vasta obra marcada pelo debate racial e pela subjetividade feminina.

 

5. Abdias Nascimento

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Muito mais do que um autor, Abdias Nascimento foi um ator, professor, dramaturgo e ativista político. Nascido em 1914, mais de vinte anos após a abolição da escravidão, Nascimento viu um mundo muito diferente dos narrados pelos autores anteriores: os negros eram livres em tese, mas o racismo continuava presente em todos os lugares.

Depois de uma passagem pelo Movimento Integralista, Nascimento passou a fazer parte do Movimento Negro e fundou em 1944 o TEN (Teatro Experimental do Negro), uma companhia voltada para combater os estereótipos raciais no teatro que fez história até mesmo no cinema, formando grandes nomes da dramaturgia nacional como Ruth de Souza, Arinda Serafim, entre outros. A trajetória do grupo é narrada em seu livro, “Teatro Experimental do Negro”.

No final da década de 1960, após fundar o Museu de Arte Negra, devido à grande repressão da época, sai do Brasil e faz palestras em todo mundo, ganhando o título de professor emérito na Universidade do Estado de Nova Iorque e se estabelecendo por um breve período na Universidade de Ife, na Nigéria, onde publica seu manifesto “O Genocídio do Negro Brasileiro – Processo de um Racismo Mascarado”, em resposta às tentativas de censura de representantes brasileiros no Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas de 1977.

Ao voltar do exílio, Nascimento se insere na política nacional, criando o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) e sendo eleito deputado federal e posteriormente senador. É também ele um dos principais responsáveis pela criação do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, data instituída em 2006 em São Paulo.

Abdias Nascimento faleceu em 24 de maio de 2011, na cidade do Rio de Janeiro, deixando uma longa bibliografia com títulos como “Sortilégio” e “Quilombismo”, sempre pensando na desigualdade racial brasileira. Sua biografia, escrita por Sandra Almada, está disponível para ler no Ubook.

 

6. Nei Lopes

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Nei Lopes nasceu em 1942, no Rio de Janeiro, e começou sua carreira no samba. Após formar-se pela Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, em 1966, e abandonar a carreira de advogado, Lopes grava seu primeiro samba, “Figa de Guiné”, em 1972 – o que não foi novidade para quem acompanhou sua juventude em montagens teatrais, rodas de choro e saraus.

Ainda na década de 1970, cria o Grêmio Recreativo de Artes Negras e Escola de Samba Quilombo, juntamente com Candeia e Wilson Moreira, com quem lançaria seu primeiro disco em 1980. Após o lançamento, Nei Lopes passa a se dedicar à pesquisa da história e cultura afrobrasileira – e, até hoje, publicou mais de 30 livros sobre o assunto, sem jamais deixar de lado, claro, sua trajetória no samba.

Nos últimos anos, Lopes apresentou a conferência “O negro na literatura brasileira: autor e personagem” na Academia Brasileira de Letras, participou da Bienal do Livro do Rio de Janeiro na seção “Café Literário” e ganhou o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e a medalha da Ordem de Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Além disso, ganhou prêmios como o “Prêmio Shell de Teatro”, o “Troféu Bibi Ferreira” e o “Prêmio da Associação de Produtores Teatrais do RJ”.

Nei Lopes segue publicando até hoje, e suas obras “Dicionário Escolar Afro Brasileiro” e “Enciclopédia Brasileira Da Diáspora Africana” estão disponíveis para ler no Ubook.

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